A subida dos preços dos alimentos está a transformar produtos frescos e saudáveis num luxo para muitos agregados familiares. Enquanto a pizza congelada barata e os snacks prontos a comer ocupam as prateleiras, as associações de defesa do consumidor defendem agora um contra-modelo radical: 100 alimentos escolhidos de propósito deveriam ser vendidos nos supermercados apenas ao preço de compra, sem margem adicional.
Em que consiste a exigência de 100 alimentos básicos baratos
Em França, a conhecida organização de consumidores UFC‑Que Choisir lançou, em conjunto com a Foodwatch, a Familles Rurales e a instituição católica de ajuda Caritas, uma campanha de grande escala. O núcleo da iniciativa é simples: obrigar os supermercados a disponibilizar 100 alimentos particularmente importantes e recomendados do ponto de vista da saúde ao preço de custo. O pano de fundo é a inflação acentuada dos géneros alimentícios, que atinge sobretudo quem tem rendimentos mais baixos.
Os promotores falam num “direito a uma alimentação saudável”, que neste momento só existe no papel para milhões de pessoas.
Segundo as associações, os mais afetados são sobretudo produtos frescos como fruta, legumes, peixe ou leite. Enquanto os produtos prontos a consumir parecem frequentemente baratos devido a promoções agressivas, os preços dos alimentos de base sobem muito mais depressa. O resultado é que muitas famílias, pressionadas pelo orçamento, acabam por escolher alternativas de menor qualidade, com mais açúcar, sal e aditivos.
Inflação à mesa: quando a fruta fica mais cara do que a pizza congelada
A tendência nota-se sobretudo nas secções de produtos frescos: maçãs, cenouras, saladas ou peixe fresco custam agora claramente mais do que há apenas alguns anos. Em paralelo, os produtos muito processados - desde pães de hambúrguer baratos até molhos prontos - continuam relativamente acessíveis, muitas vezes graças à guerra de preços entre as grandes cadeias.
As associações em França recorrem a um número preocupante: cerca de 29 por cento das pessoas afirmam que, por falta de dinheiro, pelo menos ocasionalmente saltam uma refeição. Este valor está apenas ligeiramente abaixo das estimativas de muitas organizações sociais na Alemanha.
Especialistas em saúde veem aqui uma evolução perigosa. A falta de acesso regular a fruta, legumes, cereais integrais e proteínas de elevada qualidade aumenta o risco de diabetes, doenças cardiovasculares e certos tipos de cancro - doenças que, a longo prazo, custam milhares de milhões ao sistema de saúde.
32 organizações formam uma aliança ampla em torno dos 100 alimentos básicos
O que começou como uma iniciativa de alguns defensores do consumidor transformou-se rapidamente numa aliança social alargada. No total, 32 organizações ligadas à proteção do consumidor, ao combate à pobreza, à representação de doentes, ao trabalho com estudantes e à saúde ambiental apoiam a exigência de disponibilizar 100 alimentos ao preço de custo.
A mensagem dirigida à política é clara: a alimentação saudável não pode ser um artigo de luxo; deve fazer parte da provisão essencial, tal como a eletricidade ou o aquecimento.
No apelo conjunto enviado ao governo, as associações escrevem que o Estado tem de garantir que as recomendações oficiais de alimentação sejam realmente exequíveis. Pouco serve recomendar às pessoas “cinco porções de fruta e legumes por dia” se precisamente esses produtos forem os maiores responsáveis pela fatura no carrinho de compras.
O foco recai, em particular, sobre as grandes cadeias de distribuição. Cinco grupos - entre eles E.Leclerc, Intermarché, Auchan, Carrefour e a cooperativa U - controlam cerca de 80 por cento do mercado alimentar em França. As associações acusam-nos de praticarem margens excessivas sobre alimentos básicos importantes, enquanto atraem clientes para as lojas com promoções em produtos industriais.
Como o preço de custo nos supermercados dos 100 alimentos básicos deverá funcionar
A exigência da campanha está definida de forma precisa: 100 produtos concretamente identificados passariam a ser vendidos obrigatoriamente ao preço de compra, ou seja, sem a margem comercial habitual com que os supermercados cobrem custos e obtêm lucro.
Há dois pontos essenciais para os promotores:
- Os rendimentos de agricultoras e agricultores não podem ser reduzidos.
- Os supermercados devem ajustar as suas margens noutros artigos, e não à custa dos produtores.
Formalmente, a reivindicação é dirigida diretamente ao governo. Todos os dias, as associações enviam por e-mail a lista atualizada de signatárias e signatários ao ministro da Economia e ao ministro responsável pelas pequenas e médias empresas e pelo poder de compra. Em paralelo, acionaram a autoridade da concorrência para que a formação de preços no comércio alimentar seja analisada com mais detalhe.
Que categorias de produtos os 100 artigos deverão abranger
A lista segue as recomendações do programa estatal de nutrição e saúde em França. A prioridade vai para produtos simples, pouco processados, com os quais seja possível preparar em casa o maior número possível de refeições equilibradas.
Categorias típicas de produtos na lista dos 100 alimentos básicos
- Fruta e legumes frescos (por exemplo, maçãs, cebolas, cenouras, produtos sazonais)
- Acompanhamentos à base de cereais e amido (massa integral, arroz, flocos de aveia, farinha, pão)
- Fontes de proteína de elevada qualidade (ovos, certas espécies de peixe, leguminosas como lentilhas ou grão-de-bico)
- Laticínios essenciais (leite, iogurte natural, queijo fresco batido, queijo selecionado)
- Gorduras e ingredientes de base (óleo, manteiga, um pouco de açúcar, especiarias simples)
Muitos destes produtos deverão, de preferência, provir de cadeias de abastecimento regionais ou nacionais, e parte deles em modo biológico. O objetivo é criar uma espécie de “cabaz de base saudável” com que um agregado familiar possa cozinhar ao longo da semana sem depender de refeições prontas altamente processadas.
| Categoria | Exemplos de produtos | Função no dia a dia |
|---|---|---|
| Fruta e legumes | Maçãs, bananas, cenouras, tomates | Vitaminas, fibras, base para acompanhamentos e lanches |
| Cereais | Pão integral, massa, flocos de aveia | Energia saciante, base para pratos económicos |
| Fontes de proteína | Ovos, lentilhas, peixe congelado | Construção muscular, saciedade prolongada, substituto da carne cara |
| Laticínios | Leite, iogurte natural | Cálcio, proteína, utilização versátil |
| Ingredientes de base | Óleo, farinha, açúcar, sal, especiarias | Base para pratos cozinhados em casa e produtos de pastelaria |
O que este modelo poderia significar para Portugal
O debate em França deverá ser seguido com atenção também no espaço lusófono europeu. Muitos padrões são idênticos: poucos grandes grupos de distribuição, lucros em crescimento no retalho e, ao mesmo tempo, consumidores a queixarem-se de talões cada vez mais pesados. As organizações sociais relatam também aqui famílias que poupam na fruta e nos legumes para conseguirem simplesmente comer o suficiente.
Um preço de custo obrigatório para uma lista definida de alimentos de base iria, em Portugal, interferir profundamente no mercado, mas poderia fazer uma diferença visível. Só por si, um cabaz permanentemente mais barato com maçã, cenoura, flocos de aveia, arroz, ovos e iogurte natural já melhoraria o nível nutricional de muitas crianças.
Do ponto de vista económico, uma medida destas seria uma rutura com o habitual; do ponto de vista da saúde, poderia compensar a longo prazo - também para o orçamento do Estado.
Ao mesmo tempo, coloca-se a questão de como os supermercados cobririam então os seus custos. Uma possibilidade seria aplicar margens ligeiramente mais altas a artigos de luxo, produtos de marca, snacks e álcool. Os críticos alertam para aumentos de preços disfarçados noutros produtos; os defensores respondem que precisamente esses artigos são dispensáveis e precisam de menos proteção do que os alimentos essenciais.
Como os consumidores podem organizar o seu próprio “cabaz de base saudável”
Independentemente de a iniciativa francesa resultar ou não, vale a pena olhar para a ideia que lhe está subjacente: um cabaz de base claramente definido, composto por alimentos simples e ricos em nutrientes, que esteja o mais possível sempre em casa. Muitos médicos especialistas em nutrição recomendam que se crie uma lista fixa e que as promoções sejam aproveitadas de forma direcionada.
Alguns blocos típicos para um cabaz destes são, por exemplo:
- Uma ou duas variedades de fruta barata em promoção, como maçãs ou bananas
- Legumes sazonais, que estejam nesse momento mais acessíveis
- Flocos de aveia, arroz ou massa como base neutra
- Ovos, leguminosas e, ocasionalmente, peixe como fonte de proteína
- Leite ou alternativas vegetais, iogurte natural
Com estes ingredientes simples, é possível preparar muitos pratos rápidos: arroz com legumes, estufado de lentilhas, legumes assados com ovo, papa de aveia com fruta, iogurte com flocos de aveia. Quem tiver algumas especiarias básicas em casa consegue passar sem misturas prontas caras.
Porque é que as estruturas de preços no supermercado parecem tão pouco transparentes
Muitos clientes sentem a política de preços no comércio como algo difícil de compreender. Produtos de marca surgem de repente fortemente reduzidos, enquanto os produtos de base ficam discretamente mais caros. Campanhas especiais, descontos em quantidade e cartões de cliente acabam por ocultar o nível real de preços.
É precisamente aqui que intervêm as associações francesas: falam em “falta de transparência” e em “margens excessivas” sobre alimentos básicos importantes. Um inquérito da autoridade da concorrência deverá esclarecer onde se geram os lucros no comércio e se certas categorias de produtos são usadas sistematicamente para subsidiar outras.
Para já, aos consumidores resta observar com mais atenção: comparar preços unitários, avaliar criticamente as promoções, confrontar marcas com produtos sem marca e cumprir rigorosamente as listas de compras. Quem souber exatamente quais são os 10 a 15 produtos de que o agregado realmente precisa com regularidade deixa de ser tão facilmente influenciado no momento de pagar.
A exigência francesa de 100 alimentos ao preço de custo toca numa ferida aberta: uma sociedade moderna pode suportar produtos especiais caros, mas tem primeiro de garantir que a provisão alimentar saudável não falha à frente da prateleira. Se o modelo francês vier ou não a tornar-se uma tendência europeia, isso decidir-se-á nos próximos anos, provavelmente também sob a pressão de novas vagas de aumentos de preços.
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