Nas redes sociais anda a circular um truque para espargos que promete o seguinte: se a haste for dobrada da forma certa, parte sozinha exatamente no ponto em que começa a parte tenra. A ideia soa quase a magia, poupa tempo e, ao mesmo tempo, está a alimentar discussões na comunidade da cozinha. Mas quão útil é, na prática, este truque de dobrar? Como se usa de forma sensata e em que momentos é melhor voltar a pegar na faca?
O que está por trás do truque de dobrar o espargo
A lógica base é simples de explicar: pega-se numa haste de espargo cru pelas duas extremidades, dobra-se ligeiramente para baixo e espera-se até partir. A parte de cima é considerada própria para consumo, enquanto a inferior é vista como lenhosa e vai para o lixo.
O truque de dobrar aproveita o facto de a parte fresca e tenra ser mais elástica, ao passo que a extremidade lenhosa cede mais cedo e se parte.
Este “estalo” agrada bastante a muitos cozinheiros amadores. Não é preciso tábua, não é preciso faca, nem gastar tempo a pensar quanto se deve cortar. Sobretudo quando se trata de um petisco rápido depois do trabalho, com espargos verdes, a ideia torna-se bastante tentadora.
Ainda assim, os profissionais da cozinha travam um pouco esse entusiasmo. Porque o ponto em que o espargo se parte não é uma ciência exata. Quem parte cada haste sem critério acaba muitas vezes por deitar fora mais parte comestível do que o necessário.
Até que ponto o truque funciona de forma fiável?
O truque pode, de facto, funcionar - só que não com precisão milimétrica. Há vários fatores que influenciam o resultado:
- Frescura: espargos muito frescos são, no geral, mais elásticos; hastes mais antigas partem mais depressa.
- Espessura: hastes grossas parecem mais rígidas e costumam partir mais acima, mesmo quando ainda existe fibra boa por baixo.
- Técnica: quem dobra com demasiada força provoca uma rutura situada demasiado alto.
Portais de gastronomia e chefs profissionais que testaram o truque chegam, em regra, a uma conclusão semelhante: serve como orientação aproximada, mas não é a melhor opção se se pretende uma garantia exata contra a parte lenhosa.
Muitas hastes partem, de facto, mais ou menos no sítio certo - mas raramente exatamente onde termina a zona lenhosa.
Fica então a pergunta: como usar o truque de dobrar de modo a que vá o mínimo possível para o lixo?
Combinação inteligente: partir uma vez e cortar depois com precisão
Quem gosta do truque não precisa de o abandonar por completo. Uma solução prática, usada em muitas cozinhas profissionais, junta as duas coisas: dobrar e usar a faca.
Método combinado, passo a passo
- Dobrar uma haste: segure uma haste de espargo nas mãos como no truque clássico e dobre-a suavemente até partir. Guarde o ponto de quebra como referência.
- Criar uma medida de comparação: coloque a haste partida na tábua e alinhe as restantes ao lado.
- Aparar com a faca: corte todas as outras hastes exatamente com o mesmo comprimento - de forma rápida, limpa e sem andar a partir ao acaso.
- No caso de hastes muito grossas: é preferível descascar o terço inferior em vez de partir generosamente, para evitar desperdício.
Desta forma, tira-se partido do encanto do truque viral, mas reduz-se bastante o desperdício. Sobretudo quando há muito espargo para preparar, por exemplo para visitas ou para uma refeição em família, esta variante híbrida poupa tempo e paciência.
Diferenças entre espargo verde e espargo branco
Espargo verde: é aqui que o truque de dobrar ganha mais popularidade
O espargo verde tem uma pele relativamente delicada e, muitas vezes, é descascado apenas na parte inferior ou nem sequer é descascado. Aqui, o truque de dobrar mostra melhor as suas vantagens:
- as extremidades inferiores ficam mais bem delimitadas
- a pele é, no geral, menos fibrosa
- a preparação é rápida, por exemplo para frigideira ou grelha
Quem dobra ligeiramente o espargo verde e depois descasca finamente o terço inferior obtém, na maioria das vezes, um resultado agradavelmente tenro, sem deitar muito fora.
Espargo branco: descascar continua a ser obrigatório
No caso do espargo branco, a história é diferente. Aqui, o problema não está apenas na extremidade inferior, mas sobretudo na pele firme e fibrosa. Um puxão mais forte ao dobrar não resolve isso.
Por isso, as hastes brancas passam sempre pelo descascador. A partir da cabeça para baixo, à volta de toda a haste, normalmente com alguma generosidade. Só depois disso é que muitos cozinheiros ainda cortam um ou dois centímetros da extremidade; em hastes mais velhas, até mais.
No espargo branco, o truque de dobrar nunca chega por si só - sem um descasque cuidado, continua duro e fibroso.
Quem quiser usar o truque aqui deve vê-lo apenas como uma orientação aproximada para a zona final, e não como método único.
Evitar o espargo lenhoso: a frescura é a chave
O melhor truque para fugir às extremidades lenhosas começa, na verdade, antes de cozinhar: na compra. Quanto mais frescas forem as hastes, menos firmes e fibrosas estarão.
Como reconhecer um bom espargo
- Hastes firmes: devem parecer cheias, não moles nem em borracha.
- Pontos fechados: as pontas têm de estar compactas, e não abertas.
- Teste do chiado: ao esfregar duas hastes uma na outra, os exemplares frescos produzem um ligeiro chiado.
- Pontos de corte húmidos: as extremidades não devem parecer ressequidas.
Quem observa bem no talho de legumes ou no supermercado poupa-se depois a muitos aborrecimentos ao descascar e aparar.
Guardar corretamente para o espargo não ficar lenhoso
O espargo é um legume sensível. A cada dia na cozinha perde água, fica mais murcho e, na parte inferior, parece rapidamente mais lenhoso.
Dois métodos simples de conservação em casa
- Num pano húmido no frigorífico: envolva as hastes em papel de cozinha ou num pano ligeiramente humedecido, coloque no frigorífico, de preferência na gaveta dos legumes.
- Como flores em água: coloque as extremidades das hastes num copo com um pouco de água, cubra ligeiramente o copo com película aderente ou com um saco, e depois ponha-o no frio.
Ambos os métodos mantêm o espargo relativamente fresco durante um a dois dias. Não convém guardá-lo durante mais tempo, se o objetivo for obter um resultado realmente tenro.
O que fazer com as extremidades cortadas ou partidas?
As partes removidas não têm obrigatoriamente de ir para o lixo. Quem gosta de cozinhar pode ainda aproveitá-las de forma útil:
- Fundo ou caldo: cozer as extremidades com as cascas, coar e usar como base para risoto ou sopa.
- Creme de sopa: com um pouco de batata, natas e temperos, é possível transformar os “restos” numa sopa fina.
- Fundo de legumes para reserva: congelar o caldo, por exemplo em formas de gelo.
Sobretudo no espargo branco, onde já há bastante casca a retirar, este passo compensa. Assim, reduz-se um pouco o desperdício e aproveita-se melhor o sabor deste legume sazonal.
Como os métodos de confeção influenciam a sensação de espargo lenhoso
Além da preparação e da frescura, a técnica de confeção também conta. Num tacho, o espargo cozinha de forma mais uniforme; na grelha ou na frigideira, mantém-se mais firme e, na parte inferior, muitas vezes precisa de mais tempo.
Regras práticas úteis:
- Tacho: cozinhar em molhos; se as extremidades já estiverem um pouco mais velhas, descasque-as ligeiramente mais finas.
- Frigideira ou forno: descascar o terço inferior um pouco mais generosamente ou deixá-lo ligeiramente mais curto e, depois, cortar os pedaços na diagonal.
- Grelha: escaldar primeiro de forma breve, para amolecer a zona mais lenhosa.
Quem conhece o seu espargo - variedade, espessura e frescura - consegue combinar bem o truque de dobrar, a faca e o método de confeção adequado. No fim, vai para o prato exatamente aquilo que toda a gente quer: muitas pontas tenras, pouco resto duro - e uma pequena dose de magia de cozinha vem incluída.
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