Saltar para o conteúdo

A fruta e os legumes são muitas vezes mais caros no supermercado do que parecem

Mulher a escolher maçãs no supermercado rodeada de frutas variadas nas prateleiras.

Muitos compradores queixam-se do preço da fruta e dos legumes, mas os verdadeiros factores que fazem subir os preços nem sempre estão no campo - muitas vezes estão no próprio supermercado.

Quando se pesam tomates, bananas ou maçãs, o olhar vai quase de imediato para a balança - e para o valor final, que tantas vezes parece excessivo. Ainda assim, os agregados familiares continuam a comprar em força: as quantidades aumentam, apesar da sensação generalizada de que esta secção da loja está a ficar mais cara a um ritmo cada vez maior. Por detrás das etiquetas de preço existe um sistema próprio, através do qual as cadeias de retalho protegem a sua margem de lucro.

Fruta e legumes: o centro da secção de frescos

Nas grandes superfícies, a área da fruta e dos legumes já há muito que é uma das principais fontes de receita. Os clientes dirigem-se para lá por causa de um conjunto reduzido de produtos muito conhecidos: bananas, maçãs, laranjas, tomates, cenouras e curgetes. Estes artigos-base garantem movimento constante no corredor das caixas e das bancas refrigeradas.

Estudos do sector do retalho mostram que a fruta e os legumes podem representar até um terço da faturação de todos os frescos. No volume de negócios total de uma grande loja, isso corresponde a cerca de 6% a 8,5%. Para as cadeias, esta área é, por isso, muito mais do que um simples elemento visual apelativo à entrada da loja.

Ao mesmo tempo, os produtos frescos implicam custos elevados. Por cada tomate ou pêra, há vários passos envolvidos:

  • colheita manual no campo ou em estufa
  • seleção e embalagem em caixas, redes ou tabuleiros
  • transporte em veículos refrigerados
  • armazenamento em câmaras frigoríficas
  • perdas de mercadoria por deterioração ou danos

Parte dos preços elevados por quilo pode ser explicada por aqui. Um quilo de pepinos ou frutos vermelhos simplesmente não pode estar disponível durante todo o ano por 1 euro. Ainda assim, esta justificação não chega para explicar todos os picos de preço. Há outro factor que está dentro da própria loja.

Como os supermercados usam a fruta e os legumes para fazer subsidiação cruzada

Em muitos produtos de marca bem conhecidos - de barras de chocolate a detergente da roupa - os retalhistas enfrentam uma concorrência feroz. Os preços são fáceis de comparar online ou em folhetos promocionais. Nesses casos, a margem de lucro costuma ser reduzida, por vezes muito perto de zero.

Para compensar isso, as cadeias recorrem a áreas onde os clientes têm mais dificuldade em avaliar os preços. A fruta e os legumes encaixam perfeitamente nessa lógica. A diferença entre o preço de compra e o preço de venda é, aqui, claramente mais elevada.

Especialistas do comércio estimam que, em produtos frescos como fruta e legumes, as margens brutas se situam muitas vezes entre 25% e 50% - bastante acima do que acontece com muitos produtos de marca.

A diferença é especialmente grande nos artigos cujo preço quase ninguém tem imediatamente na cabeça: frutos exóticos, saladas prontas a consumir, copos de fruta já cortada. São práticos, mas muitas vezes bem mais caros do que as versões simples vendidas inteiras.

Um padrão típico é o seguinte:

  • Produtos de forte visibilidade, como bananas ou cenouras: normalmente com preços muito apertados, porque os clientes olham para eles com mais atenção.
  • Produtos exóticos e processados, como pedaços de ananás em tabuleiro ou salada em saco: margens mais elevadas, uma vez que o preço é difícil de comparar.
  • Produtos de base com pouca transparência, como batatas em saco: surgem repetidamente exemplos de mercadoria comprada por poucos cêntimos por quilo e vendida por mais de 1 euro.

O efeito é claro: o corredor da fruta e dos legumes transforma-se na verdadeira “fonte de caixa” da secção de frescos. Os produtos de marca atraem os clientes para a loja, mas uma parte do lucro acaba por ser obtida com maçãs, uvas ou saladas prontas.

Porque razão a fruta e os legumes podiam ser mais baratos

Uma parte do preço final tem, portanto, menos a ver com os agricultores ou com o gasóleo e mais com a conta interna das grandes cadeias. Quando a margem comercial média se situa entre 25% e 50%, existe margem de manobra no sistema.

Bastariam alguns pontos percentuais a menos numa área com até 40% de margem bruta para que os preços por quilo para os clientes baixassem de forma visível.

Comparações feitas a partir de vários talões de compra mostram que, quem vai aos mercados de rua ou compra diretamente ao produtor, paga muitas vezes menos pelos produtos sazonais. Em análises de cabazes típicos, as bancas de mercado e as cadeias curtas de abastecimento ficaram, em média, cerca de 6% abaixo dos preços das grandes superfícies, com qualidade comparável e produtos da época.

Ao mesmo tempo, muitas famílias dizem que mal conseguem cumprir o objectivo alimentar habitual de “cinco porções de fruta e legumes por dia” por razões financeiras. Cerca de um terço das pessoas aponta o preço como principal obstáculo. Assim, a política de preços deixa de ser apenas uma questão de orçamento e passa também a ser um problema de saúde pública.

Debate sobre regras de preços e distribuição justa

Na política e nas associações de consumidores surgem repetidamente propostas para alterar esta realidade. No essencial, discute-se uma distribuição diferente das margens e uma forma mais transparente de mostrar quem recebe quanto do preço final.

Entre as soluções em discussão estão:

  • Limites máximos para as margens comerciais numa cesta de bens essenciais, como maçãs, cenouras, cebolas ou tomates.
  • Rotulagem clara do valor que vai para agricultores e produtores e da parte que fica com o comércio.
  • Reorientação das campanhas promocionais: menos “preços bomba” para batatas fritas de pacote e refrigerantes, mais promoções para produtos frescos.

Medidas deste tipo interferem fortemente com os modelos de negócio dos retalhistas. As cadeias defendem que têm de suportar custos fixos elevados: pessoal, renda do espaço, energia, tecnologia, e perdas causadas por mercadoria estragada. Um limite rígido às margens poderia levar a menos variedade ou até ao encerramento de lojas mais pequenas.

O que os consumidores podem fazer já hoje

Até haver decisões políticas, aos consumidores resta ajustar algumas variáveis por conta própria. Quem compara preços de forma consciente descobre rapidamente diferenças grandes - até na mesma cidade e, por vezes, na mesma rua.

Algumas formas práticas de poupar na compra:

  • Ter atenção à época: morangos em junho em vez de janeiro, abóbora no outono em vez da primavera - os preços costumam ser bem mais baixos.
  • Verificar o preço por quilo: sobretudo nos produtos embalados, vale a pena olhar para o preço pequeno por quilo ou por 100 gramas.
  • Comprar em bruto e não processado: pés de alface inteiros, fruta sem cortar ou cenouras em molho costumam custar apenas uma fração das versões convenientes já preparadas.
  • Usar mercados e lojas de quinta: quem alterna entre supermercado, mercado semanal e venda direta tira partido dos pontos fortes de cada canal.
  • Analisar as promoções com espírito crítico: “três pelo preço de dois” parece tentador, mas só compensa se a mercadoria for mesmo consumida e se o preço unitário fizer sentido.

Porque razão os produtos frescos reagem tão mal a qualquer perturbação

Há um ponto que muitas vezes fica em segundo plano: fruta e legumes são produtos extremamente sensíveis. Mesmo pequenas alterações na cadeia de abastecimento podem fazer subir os custos. Uma greve nos transportes, o aumento dos custos de refrigeração ou quebras de colheita provocadas por fenómenos meteorológicos têm impacto quase imediato.

Ao mesmo tempo, as quantidades movimentadas nas grandes lojas são enormes. Quando os retalhistas ajustam a encomenda apenas ligeiramente, sobra facilmente mercadoria em excesso, que mais tarde acaba no lixo. Essas perdas entram na conta final e, no fim, os clientes acabam por suportar uma parte desse custo.

Como o consumo consciente e a pressão sobre os preços se completam

Quem quer comprar produtos frescos mais baratos deve ter duas dimensões em mente: o seu próprio comportamento e o enquadramento estrutural. Um cliente isolado não muda o retalho sozinho, mas envia sinais.

Se mais pessoas comprarem produtos da época, forem com mais frequência aos mercados ou compararem preços por quilo, a pressão sobre as cadeias altera-se. Os artigos com margens excessivas tornam-se mais facilmente alvo de crítica. Ao mesmo tempo, a procura por alimentos simples e não processados mostra que faz sentido oferecer preços justos precisamente nesses produtos.

Termos como “margem bruta” ou “subsidiação cruzada” podem parecer técnicos, mas têm impacto em decisões muito concretas do dia a dia. Quem percebe que a manteiga de marca barata é muitas vezes financiada por uvas caras ou saladas prontas pode reagir de forma mais informada na loja. Isso não significa evitar todas as kiwis ou todas as misturas de frutos vermelhos. Significa, antes, escolher com mais consciência onde vale realmente a pena pagar uma margem elevada - e onde não vale.

Comentários

Ainda não há comentários. Seja o primeiro!

Deixar um comentário